| Uma sombra projectada no silêncio |
| [Crónicas de uma Depressão] |
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Recensão crítica ao livro Uma Sombra Projectada no Silêncio [Crónicas de uma Depressão], in Kaminhos - Magazine, Março de 2007
(NOTA: a actualização anual do site determinou a remoção da rúbrica em 2008). |
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«Cortei a carne e arranquei o desespero das veias /deixei-o escorrer pelas mãos /lentamente /tão lentamente que ainda mo apanharam /coseram-no com um espartilho de linhas para que não voltasse a escapar /adormeceram-me para que não voltasse a sentir o tentador apelo da fuga»: assim escreve Cátia Mourão num depoimento pessoal sobre a depressão. «Uma Sombra Projectada no Silêncio» dos degraus de descida até à cave do não-ser que a autora ilumina no pequeno livro de 25 crónicas com a chancela da Campo das Letras.
Um «testemunho precioso», mas também uma «mensagem de esperança para quem enfrenta a depressão por lhes garantir a certeza de que a recuperação plena é sempre possível», refere o médico psiquiatra Carlos Cardoso, no prefácio. Reconhecida como um problema de saúde pública no Plano Nacional de Saúde 2000-2010, a depressão é responsável por mais de 1200 mortes, por ano, em Portugal, segundo dados do ministério da saúde. «Mergulhei na melancolia saturnina. Fui lentamente largando interesses, experimentando desistências e escorregando para dentro de mim», atesta Cátia Mourão num conjunto vocabular emotivo na cadência dos rasgões da alma doente. Patologia silenciosa e marginalizada socialmente, que afecta 20 por cento da população portuguesa e que já caracterizada pela O.M.S. como «Epidemia do Silêncio», a depressão tem causas profusamente estudas, sintomas mais comuns clarificados, medicação e intervenções psicoterapêuticas para fazerem renascer a esperança. A mensagem do livro é clara: ainda que a travessia da depressão seja de dor e destruição, a ajuda é possível e Renascer é o grito da esperança que pode calar a outra estridência interior que convoca a morte. Um retrato em 25 etapas Inicialmente editadas na Internet, no blog da autora http://www.sombranosilencio.weblog.com.pt com algumas fotografias também da sua autoria – as mesmas que surgem no presente livro – as 25 crónicas constituem um retrato completo da depressão, desde os primeiros sinais, passando pela longa travessia de vivência nos limites, até à cura final. Ao todo, diz a autora, ilustram-se sete anos de depressão, 3 dos quais em fase profunda. Lá estão os sintomas físicos, as dores musculares e abdominais, os distúrbios alimentares – com «o estômago no centro» –, o vómito, a «bola de fogo» que devora as entranhas; a fadiga, o cansaço e perda de energia, os sentimentos de inutilidade, de falta de confiança e de auto-estima, a ebriez que a faz precipitar-se na primeira substancia, como algo de «mágico, poético, quase alquímico» que lhe atenuasse as sensações – com o vinho «haveria de conseguir acertar e sentir o Nirvana de que falavam»; a irritabilidade, o estádio em que «a sensibilidade dá lugar à susceptibilidade» e «tudo perturba ao ponto limite da obsessão», «a vulnerabilidade ao som, ao toque, ao cheiro»; o desinteresse, a apatia, a tristeza e o estado «crisálida», quando forçada ao casulo dos lençóis, após a tentativa de suicídio: «talvez seja melhor assim; não quero mesmo estar acordada ou voltar a sentir seja o que for; não quero tão-pouco abrir os olhos e rever este papel de parede cor-de-rosa às florinhas, forjando a realidade. Antes tivesse grafitis! Também não quero constatar que me confiscaram as tesouras, x-actos, espátulas, frascos; não quero olhar para a porta e vê-la entreaberta, sabê-la sem chave…NÃO QUERO NADA! – a não ser que me reforcem a dose e me adormeçam de vez!». Em nota final, diz a autora que, em complementaridade à medicação, encontrou fortalecimento na terapia do Tai Chi e transcreve a reflexão em que se apoiou: «Cultiva a autoconfiança porque sem ela a vida é como uma casa em ruínas». Em mensagem de esperança aos que se encontrem no “buraco negro” da alma, refere que a sua experiência pessoal trouxe-lhe uma grande descoberta: «afinal, não somos errados mas apenas tivemos um período em que estivemos menos certos…e conclui-se que, felizmente, o “cancro da alma” tem cura.». MOURÃO, Cátia - Uma Sombra Projectada no Silêncio [Crónicas de uma Depressão], Editorial Campo das Letras, Porto: 2007 |
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| © Cátia Mourão - 2007 |